quinta-feira, 30 de novembro de 2017

BRASIL, 1759

BRASIL, 1759 (link)
Rafael Carneiro Vasques
Brasil, 2017

BRASIL, 1759


por Rafael Carneiro Vasques

Quantidade de participantes: 13.

Tempo de duração: 1-2 horas (o tempo de duração pode ser encurtado ou expandido conforme o interesse, a disponibilidade e a disposição dos participantes).

RESUMO


Brasil – 1759 é um larp que aborda as consequências do Tratado de Madri na definição da ocupação espacial das colônias portuguesas e espanholas. O governo português exige que as missões jesuítas sejam expulsas de suas recentes terras coloniais na América e o Vaticano envia um missionário para decidir qual será a posição oficial da Igreja Católica: retirada ou manutenção dos jesuítas nestes territórios. Após ouvir colonos, administradores e jesuítas, uma decisão deve ser tomada. Este larp enfoca nos debates e argumentações entre as duas partes envolvidas (administradores e jesuítas) no convencimento do emissário papal.

O TRATADO DE MADRID


Após décadas de desrespeito ao Tratado de Tordesilhas por ambas as partes, Portugal e Espanha elaboraram o Tratado de Madrid, que visou definir os limites das colônias sul-americanas baseadas no princípio do direito romano uti possedetis, ita possedeatis (quem possui de fato, deve possuir de direito). Desta forma, em 13 de janeiro de 1750, definiram-se as terras portuguesas e espanholas na América do Sul a partir dos povoamentos já existentes.

No Sul do que conhecemos hoje como Brasil (Rio Grande do Sul), existiam os Sete Povos das Missões, que é o nome dado aos aldeamentos indígenas fundados pelos Jesuítas espanhóis compostos pelas reduções de São Francisco de Borja, São Nicolau, São Miguel Arcanjo, São Lourenço Mártir, São João Batista, São Luiz Gonzaga e Santo Ângelo Custódio.

Em 1755, cria-se o “Diretório dos Índios”, no qual a administração dos indígenas passa a ser da Coroa, não da Igreja.

Com o Tratado de Madrid, os Sete Povos das Missões são reconhecidos como portugueses, o que gera problemas na administração dos territórios, visto que, em 1757, há a decisão da administração portuguesa em definir certas posturas em relação aos povos indígenas no Sul do Brasil. Sob orientação do Marquês de Pombal, o secretário do Estado do Reino de Portugal, adotam-se algumas decisões:
- a proibição do uso das línguas indígenas, inclusive nas aldeias;
- a obrigatoriedade da escola com um mestre para os meninos e outro para as meninas;
- a proibição da nudez e das habitações coletivas;
- a criação de sobrenomes portugueses;
- o incentivo ao processo de mestiçagem e
- a transformação de muitas aldeias em povoações e vilas.

Em 1758 há a proibição da escravidão indígena no território português, porém, escravidão não foi eliminada na vida prática da Colônia, pois muitos colonos sobreviviam a partir do trabalho escravo indígena.
Em relação à Igreja Católica, em 9 de Junho de 1537, com a publicação da Bula Sublimis Deus, o Papa Paulo III declara os índios seres humanos, dotados, por isso, das mesmas qualidades e defeitos.


A MEDIAÇÃO


O Larp se passa em uma administração portuguesa que recebe o enviado do papa Clemente XIII. Este enviado decidirá qual a posição da Igreja Católica em relação às missões: os jesuítas devem continuar no Brasil ou devem voltar à Europa?

A partir do diálogo com as partes, o enviado decidirá qual a posição da Igreja sobre o conflito.

Ocorrerá um sorteio de personagens entre os participantes:

1 enviado de Roma para decidir qual o destino dos Jesuítas;
4 jesuítas que defendem a necessidade da catequização para o fortalecimento da fé cristã que será um dos pilares do governo português;
4 administradores da colônia portuguesa;
2 colonos que escravizam indígenas e lutam contra a presença dos jesuítas;
1 colono que considera importante que as missões sejam mantidas.

1 cacique indígena.

Após o sorteio, os jogadores apresentam seus personagens expondo o que querem contar para os outros jogadores sobre seus personagens (o jogador pode omitir alguma informação, mas não mentir sobre o seu personagem).

Após a apresentação de todos, os grupos se separam entre aqueles que são a favor da expulsão dos jesuítas e aqueles que defendem a manutenção das Missões.


O enviado da igreja chega e se apresenta, convidando um indivíduo de cada um dos lados para que dialoguem com ele. Enquanto isso, os outros jogadores interagem e buscam convencer os personagens dos outros grupos. Após todos os 12 personagens dialogarem com o emissário, haverá um debate público e então o emissário emitirá a posição oficial da Igreja Católica, encerrando, assim, o Larp.

PERSONAGENS


Giuseppe Bandini (ROMA)
Enviado de Roma para decidir sobre as missões jesuítas, tem simpatia pelo trabalho realizado pelos jesuítas, mas compreende que as pressões realizadas por Marquês de Pombal (secretário do Reino de Portugal) não devem ser ignoradas.
Pergunta muito e fala pouco, deverá decidir sobre o futuro do território em questão.
Deve tomar muito cuidado com suas falas, que serão consideradas como a opinião oficial da Igreja.

Rodrigo de Loyola (JESUÍTA)
Órfão criado pelos jesuítas, logo foi enviado para a América para a catequização de indígenas. Durante muitos anos de sua vida, dedicou-se a torná-los católicos e fazer com que a palavra do Senhor prospere nestas plagas. Nunca teve uma família senão os jesuítas e, mais recentemente, os indígenas que ouvem suas palavras. Uma pessoa que dedicará sua vida, se necessário, pelos jesuítas, pelos indígenas e pelas palavras do Senhor.

Augusto Esteves (JESUÍTA)

Augusto Esteves foi um colono que viveu épocas de luxúria na colônia. Acabou traído pela esposa, que fugiu com outro homem, e pelos seus capangas, que o espancaram quase até a morte. Acabou sendo encontrado pelos jesuítas e, desde então, converteu-se às palavras do Senhor e acabou por se dedicar às missões. Afastado de sua vida pregressa, recusa qualquer possibilidade de luxo, lazer ou desejos terrenos. Utilizará sua história pregressa como forma de convencer sobre a possibilidade de conversão e da necessidade em continuar pregando as palavras do Senhor.

Alfonso Garcia (JESUÍTA)
Alfonso Garcia recebeu uma educação de extrema qualidade. Refinado, culto e paciente, produz longas falas com as quais tenta convencer as pessoas sobre seus pontos de vista e a necessidade de seguir as palavras de Deus. Tenta conciliar a palavra de Deus com os prazeres terrenos. Desta forma, busca convencer as pessoas sobre a importância em seguir seus desejos a partir das diretrizes religiosas. Por vezes acaba por distorcer um mandamento ou uma ação humana para que ela tenha uma força maior de convencimento.

Francesco Ortega (JESUÍTA)
Francesco Ortega é extremamente hábil politicamente. Seus discursos encantaram as cortes europeias e começou a galgar posições importantes na Igreja Católica. No entanto, uma disputa política, acabou perdendo espaço nas cortes e foi enviado para a América para provar sua devoção na árdua tarefa de catequização dos indígenas. Vê a disputa política em questão como uma forma de se destacar e voltar à Europa.

Maria Rodrigues (ADMINISTRADORA DA COLÔNIA)

Portuguesa que ascendeu política e economicamente na colônia. Cuida da administração econômica da colônia. Organiza expedições em territórios indígenas e nas missões para conseguir escravos. Dona de grandes propriedades de terra e uma inimiga declarada dos indígenas, pois os considera piores do que animais. Astuta, dócil com as palavras e decidida, pretende fazer de tudo para expulsar os jesuítas destas terras para conseguir expandir suas posses. Percebendo o potencial intelectual de Marcelo Oliveira, Maria Rodrigues o sustenta e recebe seu apoio em troca. Desta forma, conseguiu alguém para refletir suas ações e medir as respectivas consequências. Desde então, não deixa de consultá-lo ao traçar seus planos.

Marcelo Oliveira (ADMINISTRADOR DA COLÔNIA)

Marcelo apresenta-se como o principal nome intelectual da região. Profundo conhecedor de Aristóteles, dedicou-se ao direito, à filosofia e à história. Diferencia-se dos demais pelo conhecimento dos pensadores clássicos. Ao chegar à América, apoiou-se em Aristóteles para afirmar que os indígenas seriam escravos por natureza, considerando justo o aprisionamento e a escravidão dos gentílicos. Falido economicamente, recebe apoio de Maria Rodrigues, a quem acaba por compensar defendendo-a arduamente nas discussões. Com recursos parcos, sabe que dela depende a manutenção de sua vida.

Natália Simões (ADMINISTRADORA DA COLÔNIA)
Um dos raros casos na colônia, Natália Simões tornou-se juíza no Rio de Janeiro, mas uma perseguição à sua família fez com que acabasse procurando um lugar onde pudesse viver em longe dos conflitos pregressos. Profunda conhecedora das leis, a ex-juíza auxilia nas tomadas de decisões e na resolução de conflitos. Escreveu várias vezes para a Metrópole, relatando os conflitos entre colonos e jesuítas, considerando este conflito perigoso para o fortalecimento da Coroa. Defende a expulsão dos jesuítas, pois os considera muito independentes em relação às leis portuguesas. Não tem conflito com os indígenas (residentes originais da terra), mas, sim, com os jesuítas.

Fabiano Vicente (ADMINISTRADOR DA COLÔNIA)
Chefe militar da região. É um homem rude, com pouca afeição aos pomposos tratados e demandas da política. Perdeu incontáveis homens em conflitos com os indígenas, acredita que a extinção deles deve ser feita para que se tenha uma sociedade realmente sadia e harmoniosa. Relembra-se sempre das emboscadas sofridas e vangloria-se de já ter matado mais de 10 guerreiros indígenas. Massacrou uma tribo indígena a mando de Amanda Bulhões.

Marco Aurélio de Vasconcelos (COLONO)
Exímio comerciante que conseguiu aumentar suas finanças com o tráfico intensivo de trabalho escravo indígena. Apesar do tráfico ser ilegal, forja ataques indígenas para defender a justeza da captura. Recorre às cicatrizes em seu corpo como resultantes de ataques indígenas (na verdade são decorrentes de uma briga de bar). Pouco religioso, tripudia dos jesuítas, chamando-os de amantes de indígenas. Considera-os ignóbeis e nocivos, visto que não conseguem conviver em paz com seus vizinhos.

Amanda Bulhões (COLONA)

Viúva de Carlos Bulhões, Amanda tem utilizado trabalho escravo indígena para desmatar uma região anteriormente pertencente a uma tribo indígena. Após Fabiano Vicente dizimar a tribo, pagou-lhe uma quantia significativa e apropriou-se das terras indígenas. Extremamente religiosa, espera que o enviado de Roma expulse os jesuítas e que perceba que os indígenas são, na verdade, um verdadeiro estorvo para o desenvolvimento da população realmente crente em Deus. Considera que os jesuítas foram possuídos de alguma forma pelos indígenas e que são verdadeiros traidores da causa do Senhor.

Alberto Maciel (COLONO)
Atualmente o maior detentor de gado da região, Alberto Maciel já enfrentou problemas com as tribos indígenas que atacaram seu gado para se alimentar. A única forma de solucionar este problema, em sua visão, é catequizá-los. Não acredita ser possível exterminar os indígenas (são muitos) e é contra a escravidão (vai contra a bula papal). Defende, portanto, a manutenção das missões como forma de diminuir os conflitos e, desta forma, conseguir que seus negócios prosperem.

Djekupé A Djú (Sepé Tiarajú) (CACIQUE INDÍGENA)
O grande Djekupé A Djú teve sua aldeia destruída por um ataque dos colonos e acabou sendo adotado pelos guaranis. De cabelos castanhos, Djekupé liderou uma forte resistência às ocupações espanholas e portuguesas. Enviou uma carta à Coroa espanhola na qual afirmava: “Esta terra tem dono”. Aliou-se aos jesuítas como forma de sobrevivência, mas não se converteu ao cristianismo. A estética ritualística cristã atraía-lhe mais que as crenças. Excelente guerreiro e orador que se destaca pela capacidade de conversar com os europeus. Percebeu que a permanência dos jesuítas é uma forma de controle à sanha destruidora dos colonos.

REFERÊNCIAS


Este larp é ambientado no Brasil colonial e lida com os impasses decorrentes do processo de colonização e das disputas de poderes entre os agentes políticos envolvidos. A principal referência para este larp é o filme A Missão, de produção anglo-francesa e dirigido por Roland Joffé e lançado em 1986, que contou com Robert DeNiro e Jeremy Irons como protagonistas.



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